Tradutor

Literativando

Poesia do mês de agosto



LINHAGEM por Michel Yakini
                         Dedicado a Raquel

Nossa avó é a coragem
Escalando essa serra
Renegando o açoite
De muitas noites em claro
E revolta no olhar

Nossa mãe é ponta firme
Trançando sua versão
Sepultando a macheza
Ergue o pulso adiante
Se opressão cutucar

Tu és a força presente
Lança certeira da prosa
Ventre fértil mãe preta
Embalando o futuro
Nosso fruto secular

Nossa filha é essência
Horizonte de argila
Esculpindo as canções
Nos cantos do passado
Pelos ares ecoar.  

Essas são nossas memórias
Nossas linhas na história
Escrita em letras de mão
Com graveto na areia
Pro no vento se espalhar 





Poesia do mês de Junho
Enchamas Por Raquel Almeida



Ansioso calor aumenta o desejo
Antes beijo antes abraço
Enlaço esse encanto


E fico...


Entre os nós do amasso
Entre feitiço
Entre efeito
No enlace sem pressa
Pensando desejos
E desejando promessas
Dentro do fogo
Mergulho e afago

Passa tudo
E tudo passou
E nós
Na incandescente chama
Dormimos no colo do nosso amor.




Poesia do mês de maio
Lei Áurea
Por Carlos de Assumpção

Viva a Princesa Isabel
Viva a senhora redentora
Agradecimento profundo
A bondosa princesa que em maio
nos deu de bandeja a Lei Áurea


Lei Áurea verdadeiro cheque sem fundo


Poesia do mês de abril

Campanha Volta João (vingou)
Por Soraia Lima

Dia 3 na quinta-feira
A noite estava quente
Os poetas inspirados
Mas havia um ausente
O cenário estava armado
Tudo muito reluzente
Mas faltou o Seu João
Homem que viu o cão
Lá no Elo da Corrente

Foi o Douglas bom cabelo
Que se encheu de empolgação
Leu uns versos de cordel
Com sotaque e emoção
Todo mundo repitia
Foi tamanha comoção
Então o Douglas gritou
Toda gente então bradou
Por favor volta João !!!

  


Poesia do mês de março

Alembramentos
por Michel Yakini

Alembro de um tempo
que o mundo
era maior, bem maior
e cabia dentro do nosso abraço

Alembro do dia
que vi um colibri
lacribeijando o sol
lhe dando de beber

Alembro de cores minhas
ausentes
que por fim
não esbarro mais

Alembro que eu gostava
de vagar por aí
a ouvirtude 
que o silêncio dizia

Até uma vez,
ainda miúdo,
me ensinaram
que "Alembrar"
é um erro!

Depois disso:
tem coisa que não lembro
mas do resto alembro de tudo!

Poesia do mês de janeiro

Faculdade
por Fuzzil

Minha faculdade é a rua!

Formei-me em Letras,

História e Geografia.



Fiz letra de samba,

Letra de rap,

Letra de forma,

Letra de mão,

Letra de pixo,

Letra de grafite.



Fiz histórias nas ruas!

Contei histórias da vida,

Histórias de manos e minas,

Histórias do cotidiano...

Histórias de miliano,

Histórias verídicas.



Andei pelos guetos, becos,

Observei os terrenos baldios,

Construí poemas de madeira,

Barracos de papel.

Observei os arranhas céus

Os córregos poluídos.



Minha faculdade é a rua!

Formei-me em Letras,

História e Geografia
 

Poesia do mês de Dezembro

Alma de Ninguém
Por: João do Nascimento Santos


Preciso do teu bom dia
Boa tarde e boa noite
Você falando comigo
A vida aumenta um mês
A minha alma se salva
O céu se abre de vez

E quando passas por mim
Meu corpo se estremece
Perdido estou, sem perdão
A vida não me convém
E se não fala comigo
Perco a alma também

Perdendo o corpo e a alma
Para mim nada interessa
Vou puxar uma cadeira
Uma cerveja pedir
Não tendo corpo e nem alma
Não bebo e nem vou dormir

Assim não vou precisar
Que alguém vele por mim
Eu mesmo fico velando
O meu poço de loucura
Uma alma invisível
De um corpo sem figura

Quando alguém me perguntar
O que eu estou fazendo
Sentado à beira do poço
Conversando pro além
Tenho eu que responder
Velo a alma de ninguém

Ninguém um dia vai ter
A má imaginação
De está à beira do poço
Falando ao invisível
Conversando com a alma
De um corpo inexistivel

E consagrado sou eu
Na terra estou criando
Tenho filhos sem ter mãe
Tenho filhos do além
Hoje mesmo dei a luz
Para a alma de ninguém


Poesia do Mês de Novembro

Menina Princesa
por Raquel Almeida

Ali, naquela viela
Existe uma princesinha triste
Ela está chorando
Porque estão rindo do seu cabelo.


Ali, naquela viela
A princesinha chora
por não querer ir pra escola
Ela diz não ter amiguinhos
E que a professora
Sempre a deixa de castigo.


E ali, mais uma vez
A princesinha vai chorar
Ela pede a Deus
Que lhe dê cabelos lisos,
olhos azuis e pele branca
Seria igualzinha as "lindas princesas"
Dos contos de farsas

Oh, menina princesa!
Enxergo em você tanta beleza
Seu cabelo trançado é realeza
Sua pele cor da noite
É linda, tenha certeza
Seu sorriso é luz
Contagia minha alma
Seus olhos, que não são azuis
Me transmitem calma


Oh menina princesa!
Sim, você é princesinha
Nossas histórias encantadas
Foram apagadas
Mas você relatará um dia


Bela menina dos olhos de jabuticaba
Não ligue para quem te faz chorar
São pessoas que ainda não sabem
Que somos realeza


Menina negra
De linda beleza
Você sim
É uma princesa.



Poesia do Mês de Outubro:

Sentimentos
por Michel Yakini

Por aí muito sinhô

Esses chamados de dotô

Dizem que nossa poesia

É limitada, um horrô


Pois digo que esses cabra

Que nunca pegou na enxada

Dizem que sabem tudo

Mas num sabem é de nada


Esses "donos da verdade"

Num conhece a realidade

Vivida pelos caboclo

No sertão e na cidade


Só ficam em gabinete

Entre quatro parede

Enquanto nóis clama justiça

Eles fingem que num entende


Diz que nóis num sabe lê

Quanto menos iscrevê

E que nosso linguajar

É difícil compreendê



Pois deixe que eles insista

Em fazer grossa vista

Pois nóis se fortalece

Aqui no bar do Santista



É aqui que tá nossa gente

Povo lindo e inteligente

Pelo amor e pela arte

Mais um Elo da Corrente



Gente que sabe o que quê

Homem, criança e muié

Que não deixa esses dotô

Nos tratar como qualqué


Essa gente de muito dinhêro

Empresário, político, banquêro

Que concentra toda a riqueza

Lavando no estrangêro



Esses tão iludido

Pensam tá bem protegido

Mas quando abrirem o zóio

O bolo vai tá dividido



Pois nesse grande momento

Expandimos conhecimento

Lendo nossos próprios livros

Que hoje tamô escreveno



E esses mesmos livro

Que um dia nos foi proibido

Hoje nos dá o poder

De sermos reconhecido



Muda a real de figura

Fazendo literatura

Eleva nossa auto-estima

Renasce nossa cultura



Valorizar nossa história

Resgata nossa memória

Ignorada na iscola

Hoje conduz a vitória



Salve nossa correria

Lutando no dia a dia

Muita paz e liberdade

Pra todas periferia



Sentimento que mina

Pros herói e pras heróina

Que mantêm a resistência

Feito Solano e Carolina



Os versos ficam por aqui

Mas num vamô desisti

Pois nossa luta continua

Mesmo até depois do fim.