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sábado, 14 de março de 2009

14 DE MARÇO - DIA NACIONAL DA POESIA

Sarau Elo da Corrente

"A poesia é o mais absurdo

Dos rebentos

A coceira dos insensíveis

A lágrima dos cegos

O estrondo dos surdos

O verso que versa a outra versão."

(Michel da Silva)

Como havia escrito dias atrás hoje é comemorado o Dia Nacional da Poesia, data criada oficialmente para homenagear o nascimento do poeta Castro Alves que nasceu no mesmo dia em 1847. Inclusive nosso ultimo sarau enfatizou esse acontecimento e foi bem bacana, fizemos leitura e performances retratando a vida e obra de Castro Alves, cantamos, sorrimos e celebramos como nunca.Hoje acontece vários saraus pela cidade e vamos prestigiar o Saru Poesia na Brasa.

Sinceramente esse lance de data especial nunca me convenceu muito, mas percebo que pra muitas pessoas certos assuntos só entram na prioridade de atenção, debates e ações quando chegam nas suas datas comemorativas. Pois assim como Dia Internacional da Mulher, Consciência Negra, Mãe, Pai, eu penso que o dia da Poesia é todo dia, é a toda hora e instante.

Mas para não passar batido e também aproveitar para fazer uma postagem que retrate especialmente o carro chefe desse blog, resolvemos homenagear a Poesia, os Poetas, os Leitores com algumas incomodações, provocações e poesia (é lógico).

Foto de Guma

Ensaio: Batuques, Giras e Dendê


Nesses últimos sete meses estou realizando oficinas de literatura nas Unidades da Fundação Casa (Antiga FEBEM) e tenho tido a poesia como um dos pontos fortes desse trabalho e por vezes uma pergunta sempre vem a tona: "Professor o que é poesia?".

O dia que mais marcou foi a vez que havíamos marcado um sarau com poeta Sérgio Vaz em uma das unidades, acabei chegando mais cedo, fiquei conversando um pouco com a coordenadora pedagógica da unidade e uma questão a incomodava. Ela me contou que o diretor da unidade havia ligado e confirmado presença no sarau, inclusive participaria do recital, mas perguntou se o" sarau era de poesia ou poema".

Na hora em que começamos a conversar foi a primeira coisa que ela veio me indagar, disse que estava procurando na internet e cada site falava uma coisa e queria uma resposta pronta e convincente da minha parte. Como sei que a função da arte é menos explicar e mais confundir eu respondi: "Depende!". Por hora percebi pelo seu semblante, que ela imaginou que nem sabia bem o que estava falando, mas ai eu resolvi ser menos malvado e expliquei algumas coisas.


Disse que na faculdade de letras a gente aprende que a convenção das palavras poesia e poema estão intimamente ligadas mas também tem diferenças, por exemplo:

A palavra poesia, que vem do grego poesis, significa criar ou ainda trabalho, é uma denominação que abrange todo fazer artistico, não somente a arte das palavras (literatura), pois todas as artes ( fotografia, dança, música, pintura, etc.) envolvem criatividade e trabalho, ou seja envolvem o ato de fazer poesia. Inclusive conversando em um outro momento com o fotografo e parceiro Guma ele me disse:"Faço poesia com a máquina fotográfica".



E também expliquei que a palavra poema, nada mas é que uma obra, ou seja um produto final que se denomina uma poesia (ato de criar/trabalho) já pronta, ou seja é uma obra que surge da poesia (criatividade). E os críticos (não sou eu quem diz isso) ainda explicam que para se ter um poema não basta escrever em versos (linhas do poema) e estrofes (conjunto de versos do poema), mas que esse género literário depende de como se manipula as palavras através do ato criativo (poesia) utilizando métodos de semelhança, rima, ritmo, aliteração, repetição, comparação, lirismo ou seja da preocupação com as formas (estética) do poema e não somente com o tema. Se realmente compreendi alguma coisa teórica nas aulas de Letras é por ai que se classifica poesia e poema, de uma forma mais geral.

Também compreendi que ao longo da história a palavra poesia passou a ser mais usada para denominar exclusivamente a arte das palavras, mais precisamente do estilo poema, mas são conceitos que não se eliminam, a não ser pra quem está preocupado com explicações exatas e inflexiveis sobre o assunto. Por isso que eu digo que a definição depende...

Mas depende de quê?

Primeiro cada poeta tem o direito de criar a fixar sua própria definição, pois tem toda liberdade de chamar seus escritos do que quiser.

Segundo estamos falando de arte e a arte (na minha opinião) não deve ter regras e convenções definidas e classificações fechadas, senão corremos o risco de assassinar o ponto fundamental da literatura e das artes em geral: a criatividade, a mãe de todas as artes, ou seja o elemento infinito e inacabavél de exploração e inovações.
A escritora Clarice Linspector (1920 - 1977) se irritava com as tentativas de classificação aos seus escritos, pois sabia que as classificações costumam servir, quase sempre, como mordaça, ou como muletas para esconder a preguiça dos classificadores.
Já o mestre Solano Trindade (1908-1974) escreveu na apresentação de sua obra "Cantares ao meu povo": "Agrada-me profundamente os títulos "poeta negro", "poeta do povo", às vezes dito de modo depreciativo, mas que me dão uma consciência exata do meu papel de poeta na defesa das tradições culturais do meu povo, na luta por um mundo melhor".


Solano Trindade


Outro mestre da nossa literatura, que era mais ligado ao estilo conto (como mesmo definia seus escritos) João Antônio(1937-1996) defendia uma escrita que não deve ficar preocupada apenas com a questão estética, em um conto-ensaio (Corpo a corpo com a vida), defende "que o escritor deve atentar com o compromisso sério com o fato social, assim como firmaram Lima Barreto, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Osvald de Andrade em tempos atrás. E alerta sobre a preocupação predominante com o acessório, o complementar, o supérfluo, ou seja uma preocupação vinculada somente a forma", aos "ismos" a "gula de texto brilhoso e efeitos de estilo", como ele mesmo escreve.
Há também um conversa épica registrada entre o poeta e critico francês
Staphane Mallarmé (1842-1898) que ao conversar com o pintor Edgar Degas, seu contemporâneo, sobre o fazer poético ele disse: " poesia se faz com palavras, não com idéias", enfase que recai numa defesa ao ideal concreto ou seja visual de fazer poesia.

Esse debate é constante na nossa cena literária atual, pois os poetas da periferia tem atividade muito forte em relação a militância, ou seja, alinham a produção escrita literária com a luta social, e tem gerado muita critica nos meios acadêmicos, principalmente, pois as analises privilegiam nossa evidência cultural e desprezam nosso valor na produção literária.

João Antonio


Ligya Fagundes Telles


Em um depoimento da escritora Ligya Fagundes Telles (1923-) em um documentário sobre literatura exibido na Tv Escola dise que: "todo escritor tem como missão escrever sobre aqueles que não estão em evidência na sociedade, sobre as camadas exclusas, sem voz, pois senão não está contribuindo com a função de evidenciar o que não é visto e falado, por isso todo escritor é militante no seu oficio de escrever."


Portanto, antes de classificar qualquer literatura é melhor saber o que o escritor (a) diz sobre sua escrita, se ele (a) mesmo classifica sua obra ou não, se aceita classificações ou não, pra depois abrir margem para as opiniões dos classificadores e críticos. Até porque cada poeta tem seu estilo subjetivo de criar, cada um tem um jeito diferente de expressar sua voz interior e aí que está o grande valor da literatura, não as formulas prontas, definições que só ajudam a bloquear e limitar o caminho vasto que um poeta pode explorar e inventar.



Pra incomodar um pouco mais os comichões vai aí alguns poemas escritos grandes autores (as) sobre a poesia e o ato de criar, pois nada como os próprios poetas escrevendo sobre para expressar mais fielmente o universo infinito dessa prática:






F. da P. (Solano Trindade)

Amor
um dia farei um poema
como tu queres
dicionário ao lado
um livro de vocabulário
um tratado de métrica
um tratado de rimas
terei todo cuidado
com meus versos

Não falarei de negros
da revolução
de nada
que fale do povo
serei totalmente apolítico
no versejar.
falarei contritamente de Deus
do Presidente da República
como poderes absolutos do homem
neste dia de amor
serei um grande F. da P.


A Poesia (Sergio Vaz)

A Poesia
É o esconderijo do
açucar
E da pólvora:
Um doce
Uma bomba
Depende
De quem devora ...


Do Oficio (Cuti)

Poeta cozinha o galo em fogo brando
e sabe
que o inimigo feroz
tem fome
mas desconhece
os venenos
que das palavras fazem a carne apetitosa
tão macia
e letal.


Procura da Poesia (Carlos Drummond de Andrade)

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Ser Poeta É... (Soninha M.A.Z.O)

Ser poeta

Não é saber traçar algumas linhas

E sim fazer-se entender

A escrita e absorver o conteúdo

Dela

Ser poeta é escrever com simplicidade

Mas com sabedoria

É saber apreciar os minúsculos

Gestos da natureza e saber enxergar

A grandiosidade de um grão de areia

Ser poeta é ter a inocência de

Uma criança, a delicadeza de uma flor

A sutileza de um adulto

E receber os sinais da vida com amor

Ser poeta é voltar a seu berço de origem

Traçar de volta cada curva do seu caminho

Saber ser humilde, apreciar e dar

Atenção aos leitores com carinho

Ser poeta é por na ponta da caneta

Todo seu amor, sua ira contra a hipocrisia

É fazer do pingo uma letra da letra

Uma frase e todas as frases uma poesia

Ser poeta é ter a sensibilidade para ouvir o

Bater das asas de um beija- flor

É ter Todos os sentidos humanos

Aguçados em um só

E não se fazer de cego e aceitar migalhas

Como prova de amor

*

"Noventa por cento do que escrevo é invenção

Só dez por cento é mentira"

(Manuel de Barros)

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ATÉ JÁ!

MICHEL

2 comentários:

Kbça disse...

Fala ai meu mano !!! Parabens e obrigado pelo seu comentario quase que esclarecedor...rsrsrs.... Concordo contigo tambem... me lembrou acho que Oscar Wilde: `Definir e limitar`. Tambem nao sou muito fa de definicoes, mas nao e por isso que nao vamos tentar entender seus significados e origens. Creio que conhecer algo se faz como o primeiro passo para que se possa desenvolver as reflexoes e criticas....
Parabens ai mano....
is we....

Cidinha da Silva disse...

Olá Michel,
curti muito o seu texto. Acho fundamental apurar a criticidade e fortalecer os argumentos que demarcam o nosso lugar no mundo. Aprecio o caminho que você está seguindo.

um abraço,
Cidinha